Por que quereis

“Por que quereis, Senhora, que ofereça
a vida a tanto mal como padeço?
se vos nasce do pouco que mereço,
bem por nascer está quem vos mereça.

Sabei que, enfim, por muito que vos peça,
que posso merecer quanto vos peço;
que não consente Amor, que em baixo preço
tão alto pensamento se conheça.

Assi que a paga igual de minhas dores,
com nada se restaura, mas devei-ma,
por ser capaz de tantos desfavores.

E se o valor de vossos servidores
houver de ser igual convosco mesma,
vós só convosco mesma andai de amores.”

Luís de Camões, poeta português, em Sonetos.

Spiritual but not religious

“I was reflecting on the now ubiquitous contemporary phrase: “I’m spiritual but not religious.” I asked a friend about this phrase and he replied: “Many associate the word ‘religious’ with fanaticism, irrationality, intolerance, and closed-mindedness, while ‘spirituality’ suggests something more detached, thoughtful, tolerant, and open.” The “binding” (re-ligare) of religion is seen as overly constrictive.

No doubt this is an accurate assessment of a widespread feeling. And yet — call me contrary or misguided if you will — the Reverend Harding makes me think that I’m religious but not spiritual.

Communities, like families, can be healthy or toxic, but western individualism provides no true alternative. Ironically, the spiritual-but-not-religious embrace a consumerist mentality that in other contexts they harshly criticize. The irony is compounded when one realizes that these spiritual individualists — inheritors of an “I” culture — most often pluck items off the shelf of “we” cultures. Spiritual tourism offers the benefits of wisdom derived from those who submit to authority and discipline and tradition without having to do so oneself.

But spiritual tourists have no home to return to; they are always restlessly consuming new experiences. They can’t eat, pray, and love enough.”

Gregory Wolfe, American writer, in “Religious but Not Spiritual,” Image Journal, No. 68, 2017.

Ample inheritance

“When we observe the lives of those whom an ample inheritance has let loose to their own direction, what do we discover that can excite our envy? Their time seems not to pass with much applause from others, or satisfaction to themselves: many squander their exuberance of fortune in luxury and debauchery, and have no other use of money than to inflame their passions, and riot in a wide range of licentiousness; others, less criminal indeed, but surely not much to be praised, lie down to sleep, and rise up to trifle, are employed every morning in finding expedients to rid themselves of the day, chase pleasure through all the places of publick resort, fly from London to Bath, and from Bath to London, without any other reason for changing place, but that they go in quest of company as idle and as vagrant as themselves, always endeavouring to raise some new desire, that they may have something to pursue, to rekindle some hope which they know will be disappointed, changing one amusement for another which a few months will make equally insipid, or sinking into languor and disease for want of something to actuate their bodies or exhilarate their minds.”

Samuel Johnson, English writer, in Essays.

Incultura e sofrimento

”Imagine a troca de experiências entre pessoas com uma bagagem literária muito grande. Elas possuem um monte de referências literárias em comum, de modo que ao trocar experiências elas parecem que estão tocando piano. E sempre que não conseguem expressar diretamente o que estão sentindo, elas recorrem a uma analogia literária. Escritores quando conversam entre si fazem isso o tempo todo. Eles têm muito mais bagagem de leituras feitas do que capacidade de expressão, assim como todo ser humano. Todos nós, como pertencemos à mesma espécie, temos potencialmente a capacidade para termos as mesmas experiências interiores. Mas você dificilmente terá a capacidade de expressá-las com palavras próprias. Então você deve usar os recursos que estão na cultura.

A conversa entre dois homens que estão culturalmente afinados está para a conversa entre duas pessoas incultas assim como uma ligação telefônica está para outra que foi feita para um número errado. Isso é o mesmo que dizer que pessoas incultas simplesmente não conversam. Os seus mundos interiores são incomunicáveis às vezes até para elas mesmas. Como elas não sabem dizer o que estão vivenciando, essa vivência não se registra na memória, porque a memória não pode registrar estados interiores sem um símbolo que os compacte. Isso é uma angústia terrível. Noventa e nove por cento das neuroses surgem porque a pessoa não sabe falar. Assim, a primeira função da educação é uma função libertadora; de você conseguir dizer, e dizendo você se exorciza. Para um homem inculto, qualquer conflito interno é único, singular, solitário e incomunicável. Já um homem que tem ao menos a cultura da literatura de ficção sabe que é o trilionésimo a ter os mesmos conflitos. Num meio inculto as pessoas estão muito isoladas. Elas só podem se comunicar numa faixa estreita de assuntos banais e pragmáticos. Nesse meio, a experiência interior se perde porque não há registro simbólico para gravá-las na memória ou se acumula numa massa de sentimentos confusos que isola as pessoas umas das outras. Basta isso para você entender que essa história de que o homem inculto é mais feliz é uma monstruosidade. O sofrimento indizível é um bilhão de vezes pior que o dizível”.

Olavo de Carvalho, filósofo brasileiro.

A especulação gnóstica

“A especulação gnóstica venceu a incerteza da fé recuando da transcendência e dotando o homem e seu raio de ação intramundano com o significado da realização escatológica. Na medida em que essa imanentização avançou sobre o terreno da experiência, a atividade civilizadora transformou-se num trabalho místico de auto-salvação. A força espiritual da alma, que no Cristianismo se devotava à santificação da vida, podia agora ser desviada rumo à criação do paraíso terrestre, tarefa esta mais atraente, mais tangível e, acima de tudo, muito mais fácil”.

Eric Voegelin, filósofo alemão, em A Nova Ciência da Política. 

Terror de culpa

“Eles têm terror de culpa. Eu me lembro perfeitamente quando a Dona Marilena Chauí, expressando uma opinião que não era dela, mas que era de praticamente todo o corpo docente da USP, dizia:’Nós apreciamos muito as religiões afro-brasileiras, porque elas nos permitem ter uma vivência religiosa sem culpa. Nós queremos viver sem culpas.’ Ora, dizer que você quer viver sem culpas é o mesmo que dizer que você gostaria de ser um cachorro, um tatu-bola, uma minhoca. A culpa é inerente à condição humana. O fato de que você é autor de seus atos, que esses atos têm conseqüências e que, querendo ou não querendo, pode ser o portador de sofrimento e de dor para outras pessoas, é uma coisa básica na existência humana. O sujeito que quer se livrar disso quer viver como um bebê no colo da sua mãe. A declaração dela foi feita no contexto de uma reportagem que saiu na revista Veja, mostrando que praticamente todos os professores de filosofia da USP estavam freqüentando terreiros de macumba, e aquilo era a mais alta expressão religiosa que eles tinham alcançado. Então este desejo de viver sem culpas mostra claramente que existe uma consciência de culpa, só que é uma consciência sufocada, tal como aquele problema do Igor Caruso: a repressão da consciência moral. A consciência moral começa a doer e você a estrangula. Na hora em que você acha uma “religião” que lhe permite viver sem culpa, você arranja um pretexto mais ou menos elegante, um subterfúgio, para poder destruir sua consciência moral e ainda achar que está fazendo um grande negócio. As pessoas persistem nestas coisas ao longo da vida, justamente porque não têm a capacidade de agüentar as suas próprias culpas. Então, é claro que se forma um quadro neurótico, muito bem descrito por Igor Caruso como uma neurose que se forma, não a partir da repressão dos desejos – pois a repressão dos desejos é um processo normal da vida humana, como reconhecia, aliás, o próprio Freud –, mas a partir da repressão do apelo à consciência moral.

Justamente é este o perigo de você entrar na vida intelectual prematuramente, dando palpites, trazendo soluções para humanidade, etc., etc., sem ter uma firmeza suficiente do que está falando. É o perigo de você se corromper pelo resto de sua vida e virar um palhaço como José Arthur Giannotti, Marilena Chauí, cuja obra de vida inteira não significa nada para absolutamente ninguém. Tudo que eles escreveram são livros que podem ser usados durante algum tempo para fins de ensino nas próprias escolas onde lecionam, mas que jamais terão um peso existencial para qualquer leitor. Se nós quisermos fazer da nossa vida uma máquina de produzir bolhas de sabão, que tão logo saem da máquina já são estouradas, então temos de seguir este caminho. Contudo, se nós quisermos ter uma atuação firme, deixar uma marca que fique na História e que seja útil para as pessoas, então nós temos que esticar bem o estilingue para a pedra ir parar mais longe. Se você não a estica o suficiente, ela cai um metro, dois metros adiante. Então, este recuo é absolutamente fundamental para nós e é um processo que podemos comparar a uma espécie de gestação.”

Olavo de Carvalho, filósofo brasileiro, no Curso Online de Filosofia,  Aula 68.

Aniversário

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“No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!”

 

Fernando Pessoa, poeta português, em Poemas Dispersos.

O amor é uma companhia

“O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.”

 

Fernando Pessoa, poeta português, em Poesias.

Impulso de julgar

“Fórmula infalível. Antes de julgar quem quer que seja, sobretudo negativamente, certifique-se de que você já se tornou, de maneira mais ou menos estável e geral, alguém BONDOSO, VALENTE, HUMILDE E CAPAZ. Exija de si essas qualidades básicas e, quando as alcançar – porque ninguém tem as quatro de nascença – seus julgamentos sobre os demais seres humanos serão razoavelmente justos, na medida do possível. Até chegar lá, contenha seu impulso de julgar. Praticamente todos os males do mundo vêm de que as pessoas exigem mais dos outros que de si mesmas.”

Olavo de Carvalho, filósofo brasileiro, via Facebook, em 05 de Abril de 2015.

Verdade, Amor, Razão, Merecimento

“Verdade, Amor, Razão, Merecimento
Qualquer alma farão segura e forte,
Porém, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte
Têm do confuso mundo o regimento.

Efeitos mil revolve o pensamento,
E não sabe a que causa se reporte;
Mas sabe que o que é mais que vida e morte
Que não o alcança humano entendimento.

Doutos varões darão razões subidas,
Mas são experiências mais provadas,
E por isso é melhor ter muito visto.

Cousas há i que passam sem ser cridas,
e cousas cridas há sem ser passadas.
Mas o melhor de tudo é crer em Cristo.”

 

Luís de Camões, poeta português, em Poesia Lírica.