Dois conjuntos de símbolos

“Quando um teórico reflete sobre sua própria situação teórica, defronta-se com dois conjuntos de símbolos: os símbolos da linguagem produzidos como parte integrante do mundo social em seu progresso de auto-iluminação, e os símbolos da linguagem da ciência politica. Ambos se relacionam entre si, na medida em que o segundo conjunto se desenvolve a partir do primeiro através de um processo provisoriamente chamado de esclarecimento crítico. No transcurso desse processo, alguns dos símbolos que ocorrem na realidade serão abandonados por não se prestarem à utilização científica, enquanto novos símbolos se desenvolverão dentro da própria teoria para a descrição crítica adequada dos símbolos que fazem parte da realidade. Se, por exemplo, o teórico descrever a idéia marxista do reino da liberdade, a ser estabelecida pela revolução comunista, como a hipóstase imanentista de um símbolo escatológico cristão, o símbolo “reino da liberdade” é parte da realidade; é parte de um movimento secular do qual o movimento marxista é uma subdivisão, enquanto que termos como “imanentista”, “hipóstase” e “escatologia” são conceitos da ciência política. Os termos usados na descrição não ocorrem na realidade do movimento marxista, enquanto que o símbolo “reino da liberdade” não tem valor para a ciência crítica. Não há, portanto, nem dois conjuntos de termos com significados diferentes, nem um conjunto de termos com dois conjuntos diferentes de significados; o que há são dois conjuntos de símbolos com uma grande área de fonemas que se superpõem. Além disso, os símbolos da realidade são, eles próprios, em grande parte, o resultado de processos de esclarecimento, de modo que os dois conjuntos também se aproximarão com frequência um do outro com respeito aos seus significados, e, em alguns casos, chegarão a alcançar a identidade. Esta complicada situação é uma inevitável fonte de confusões, entre as quais a ilusão de que os símbolos usados na realidade política são conceitos teóricos.

Infelizmente, esta ilusão e a confusão dela resultante corroeram profundamente a ciência política contemporânea. Por exemplo, ninguém hesita ao referir-se à “teoria contratual de governo”, ou à “teoria da soberania”, ou à “teoria marxista da história”, muito embora, na realidade, seja muito duvidoso que qualquer dessas chamadas teorias possa ser considerada como tal, em sentido crítico; e volumosas historiografias sobre “teoria política” dão tratamento a símbolos que, na maior parte das vezes, encerram escasso conteúdo teórico. Essa confusão chega a anular alguns avanços logrados pela ciência política desde a antiguidade. Veja se, a propósito, a chamada teoria contratual. Neste caso, ignora-se o fato de que Platão já realizara uma análise exaustiva do símbolo contratual, não só estabelecendo seu caráter não-teórico, como ainda explorando o tipo de experiência do qual se origina. Mais ainda, ele introduzira o termo técnico doxa para a classe de símbolos da qual a “teoria contratual” é um exemplo, a fim de distingui-los dos símbolos teóticos . Os teóricos de hoje não usam o termo doxa com esse propósito nem desenvolveram um termo equivalente. A diferenciação foi perdida. Por outro lado, entrou em moda o termo “ideologia”, que, em alguns aspectos, se relaciona com a doxa platônica. Mas justamente esse termo tornou-se uma nova fonte de confusão porque, sob a pressão do que Mannheim chamou allegemeine Ideologieverdacht, a suspeita geral da ideologia, seu sentido se estendeu de tal maneira que cobre todos os tipos de símbolos usados para proposições políticas, inclusive os próprios símbolos teóricos; hoje, há numerosos cientistas políticos que classificariam como ideologia até mesmo o episteme platônico-aristotélico.

Outro sintoma dessa confusão é dado por certos hábitos de discussão. Acontece com certa frequência que, em discussões sobre um tema político, um estudante — na verdade, nem sempre um estudante — me pergunte como eu defino o fascismo, o socialismo ou qualquer outro ismo do gênero. Com igual frequência sou forçado a surpreender o meu interlocutor — que aparentemente absorveu, como parte da sua educação universitária, o conceito de que a ciência é um depósito de definições de dicionário — com minha afirmação de que não me sentia obrigado a fazer esse tipo de definição porque os movimentos do tipo mencionado, assim como os seus simbolismos, eram parte da realidade; que apenas os conceitos podiam ser objeto de definições, e não a realidade; e era altamente duvidoso que os símbolos de linguagem em questão pudessem ser criticamente esclarecidos até o ponto em que tivessem alguma utilidade cognitiva na ciência.”

Eric Voegelin, filósofo alemão, em A Nova Ciência da Política.

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Integridade

“13.18. O governante de She declarou a Confúcio: ‘Em meu povo existe um homem de firme integridade: quando seu pai roubou um carneiro, ele o denunciou’. Confúcio disse: ‘Em meu povo homens íntegros fazem as coisas de outra maneira: um pai encobre seu filho, um filho encobre seu pai e há integridade no que eles fazem'”.

Confúcio, filósofo chinês, em Os Analectos.

Transitory being

“Man is a transitory being, and his designs must partake of the imperfections of their author. To confer duration is not always in our power. We must snatch the present moment, and employ it well, without too much solicitude for the future, and content ourselves with reflecting that our part is performed. He that waits for an opportunity to do much at once, may breathe out his life in idle wishes, and regret, in the last hour, his useless intentions, and barren zeal.”

Samuel Johnson, English writer, in Selected Essays.

Poderoso Rei

 

“Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro,
Vê-o também no meio do Hemisfério,
E quando dece o deixa derradeiro;
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Do torpe Ismaelita cavaleiro,
Do Turco Oriental e do Gentio
Que inda bebe o licor do santo Rio:

Inclinai por um pouco a majestade
Que nesse tenro gesto vos contemplo,
Que já se mostra qual na inteira idade,
Quando subindo ireis ao eterno templo;
Os olhos da real benignidade
Ponde no chão: vereis um novo exemplo
De amor dos pátrios feitos valerosos,
Em versos divulgado numerosos.

Vereis amor da pátria, não movido
De prémio vil, mas alto e quási eterno;
Que não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de tal gente.

Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
Fantásticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas:
As verdadeiras vossas são tamanhas
Que excedem as sonhadas, fabulosas,
Que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro
E Orlando, inda que fora verdadeiro.

Por estes vos darei um Nuno fero,
Que fez ao Rei e ao Reino tal serviço,
Um Egas e um Dom Fuas, que de Homero
A cítara par’ eles só cobiço;
Pois polos Doze Pares dar-vos quero
Os Doze de Inglaterra e o seu Magriço;
Dou-vos também aquele ilustre Gama,
Que para si de Eneias toma a fama.

Pois se a troco de Carlos, Rei de França,
Ou de César, quereis igual memória,
Vede o primeiro Afonso, cuja lança
Escura faz qualquer estranha glória;
E aquele que a seu Reino a segurança
Deixou, com a grande e próspera vitória;
Outro Joane, invicto cavaleiro;
O quarto e quinto Afonsos e o terceiro.

Nem deixarão meus versos esquecidos
Aqueles que nos Reinos lá da Aurora
Se fizeram por armas tão subidos,
Vossa bandeira sempre vencedora:
Um Pacheco fortíssimo e os temidos
Almeidas, por quem sempre o Tejo chora,
Albuquerque terríbil, Castro forte,
E outros em quem poder não teve a morte.

E, enquanto eu estes canto – e a vós não posso,
Sublime Rei, que não me atrevo a tanto –,
Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
Dareis matéria a nunca ouvido canto.
Comecem a sentir o peso grosso
(Que polo mundo todo faça espanto)
De exércitos e feitos singulares,
De África as terras e do Oriente os mares.”

 

Luís de Camões, poeta português, em Os Lusíadas.

Por que quereis

“Por que quereis, Senhora, que ofereça
a vida a tanto mal como padeço?
se vos nasce do pouco que mereço,
bem por nascer está quem vos mereça.

Sabei que, enfim, por muito que vos peça,
que posso merecer quanto vos peço;
que não consente Amor, que em baixo preço
tão alto pensamento se conheça.

Assi que a paga igual de minhas dores,
com nada se restaura, mas devei-ma,
por ser capaz de tantos desfavores.

E se o valor de vossos servidores
houver de ser igual convosco mesma,
vós só convosco mesma andai de amores.”

Luís de Camões, poeta português, em Sonetos.

Spiritual but not religious

“I was reflecting on the now ubiquitous contemporary phrase: “I’m spiritual but not religious.” I asked a friend about this phrase and he replied: “Many associate the word ‘religious’ with fanaticism, irrationality, intolerance, and closed-mindedness, while ‘spirituality’ suggests something more detached, thoughtful, tolerant, and open.” The “binding” (re-ligare) of religion is seen as overly constrictive.

No doubt this is an accurate assessment of a widespread feeling. And yet — call me contrary or misguided if you will — the Reverend Harding makes me think that I’m religious but not spiritual.

Communities, like families, can be healthy or toxic, but western individualism provides no true alternative. Ironically, the spiritual-but-not-religious embrace a consumerist mentality that in other contexts they harshly criticize. The irony is compounded when one realizes that these spiritual individualists — inheritors of an “I” culture — most often pluck items off the shelf of “we” cultures. Spiritual tourism offers the benefits of wisdom derived from those who submit to authority and discipline and tradition without having to do so oneself.

But spiritual tourists have no home to return to; they are always restlessly consuming new experiences. They can’t eat, pray, and love enough.”

Gregory Wolfe, American writer, in “Religious but Not Spiritual,” Image Journal, No. 68, 2017.

Ample inheritance

“When we observe the lives of those whom an ample inheritance has let loose to their own direction, what do we discover that can excite our envy? Their time seems not to pass with much applause from others, or satisfaction to themselves: many squander their exuberance of fortune in luxury and debauchery, and have no other use of money than to inflame their passions, and riot in a wide range of licentiousness; others, less criminal indeed, but surely not much to be praised, lie down to sleep, and rise up to trifle, are employed every morning in finding expedients to rid themselves of the day, chase pleasure through all the places of publick resort, fly from London to Bath, and from Bath to London, without any other reason for changing place, but that they go in quest of company as idle and as vagrant as themselves, always endeavouring to raise some new desire, that they may have something to pursue, to rekindle some hope which they know will be disappointed, changing one amusement for another which a few months will make equally insipid, or sinking into languor and disease for want of something to actuate their bodies or exhilarate their minds.”

Samuel Johnson, English writer, in Essays.

Incultura e sofrimento

”Imagine a troca de experiências entre pessoas com uma bagagem literária muito grande. Elas possuem um monte de referências literárias em comum, de modo que ao trocar experiências elas parecem que estão tocando piano. E sempre que não conseguem expressar diretamente o que estão sentindo, elas recorrem a uma analogia literária. Escritores quando conversam entre si fazem isso o tempo todo. Eles têm muito mais bagagem de leituras feitas do que capacidade de expressão, assim como todo ser humano. Todos nós, como pertencemos à mesma espécie, temos potencialmente a capacidade para termos as mesmas experiências interiores. Mas você dificilmente terá a capacidade de expressá-las com palavras próprias. Então você deve usar os recursos que estão na cultura.

A conversa entre dois homens que estão culturalmente afinados está para a conversa entre duas pessoas incultas assim como uma ligação telefônica está para outra que foi feita para um número errado. Isso é o mesmo que dizer que pessoas incultas simplesmente não conversam. Os seus mundos interiores são incomunicáveis às vezes até para elas mesmas. Como elas não sabem dizer o que estão vivenciando, essa vivência não se registra na memória, porque a memória não pode registrar estados interiores sem um símbolo que os compacte. Isso é uma angústia terrível. Noventa e nove por cento das neuroses surgem porque a pessoa não sabe falar. Assim, a primeira função da educação é uma função libertadora; de você conseguir dizer, e dizendo você se exorciza. Para um homem inculto, qualquer conflito interno é único, singular, solitário e incomunicável. Já um homem que tem ao menos a cultura da literatura de ficção sabe que é o trilionésimo a ter os mesmos conflitos. Num meio inculto as pessoas estão muito isoladas. Elas só podem se comunicar numa faixa estreita de assuntos banais e pragmáticos. Nesse meio, a experiência interior se perde porque não há registro simbólico para gravá-las na memória ou se acumula numa massa de sentimentos confusos que isola as pessoas umas das outras. Basta isso para você entender que essa história de que o homem inculto é mais feliz é uma monstruosidade. O sofrimento indizível é um bilhão de vezes pior que o dizível”.

Olavo de Carvalho, filósofo brasileiro.

A especulação gnóstica

“A especulação gnóstica venceu a incerteza da fé recuando da transcendência e dotando o homem e seu raio de ação intramundano com o significado da realização escatológica. Na medida em que essa imanentização avançou sobre o terreno da experiência, a atividade civilizadora transformou-se num trabalho místico de auto-salvação. A força espiritual da alma, que no Cristianismo se devotava à santificação da vida, podia agora ser desviada rumo à criação do paraíso terrestre, tarefa esta mais atraente, mais tangível e, acima de tudo, muito mais fácil”.

Eric Voegelin, filósofo alemão, em A Nova Ciência da Política. 

Terror de culpa

“Eles têm terror de culpa. Eu me lembro perfeitamente quando a Dona Marilena Chauí, expressando uma opinião que não era dela, mas que era de praticamente todo o corpo docente da USP, dizia:’Nós apreciamos muito as religiões afro-brasileiras, porque elas nos permitem ter uma vivência religiosa sem culpa. Nós queremos viver sem culpas.’ Ora, dizer que você quer viver sem culpas é o mesmo que dizer que você gostaria de ser um cachorro, um tatu-bola, uma minhoca. A culpa é inerente à condição humana. O fato de que você é autor de seus atos, que esses atos têm conseqüências e que, querendo ou não querendo, pode ser o portador de sofrimento e de dor para outras pessoas, é uma coisa básica na existência humana. O sujeito que quer se livrar disso quer viver como um bebê no colo da sua mãe. A declaração dela foi feita no contexto de uma reportagem que saiu na revista Veja, mostrando que praticamente todos os professores de filosofia da USP estavam freqüentando terreiros de macumba, e aquilo era a mais alta expressão religiosa que eles tinham alcançado. Então este desejo de viver sem culpas mostra claramente que existe uma consciência de culpa, só que é uma consciência sufocada, tal como aquele problema do Igor Caruso: a repressão da consciência moral. A consciência moral começa a doer e você a estrangula. Na hora em que você acha uma “religião” que lhe permite viver sem culpa, você arranja um pretexto mais ou menos elegante, um subterfúgio, para poder destruir sua consciência moral e ainda achar que está fazendo um grande negócio. As pessoas persistem nestas coisas ao longo da vida, justamente porque não têm a capacidade de agüentar as suas próprias culpas. Então, é claro que se forma um quadro neurótico, muito bem descrito por Igor Caruso como uma neurose que se forma, não a partir da repressão dos desejos – pois a repressão dos desejos é um processo normal da vida humana, como reconhecia, aliás, o próprio Freud –, mas a partir da repressão do apelo à consciência moral.

Justamente é este o perigo de você entrar na vida intelectual prematuramente, dando palpites, trazendo soluções para humanidade, etc., etc., sem ter uma firmeza suficiente do que está falando. É o perigo de você se corromper pelo resto de sua vida e virar um palhaço como José Arthur Giannotti, Marilena Chauí, cuja obra de vida inteira não significa nada para absolutamente ninguém. Tudo que eles escreveram são livros que podem ser usados durante algum tempo para fins de ensino nas próprias escolas onde lecionam, mas que jamais terão um peso existencial para qualquer leitor. Se nós quisermos fazer da nossa vida uma máquina de produzir bolhas de sabão, que tão logo saem da máquina já são estouradas, então temos de seguir este caminho. Contudo, se nós quisermos ter uma atuação firme, deixar uma marca que fique na História e que seja útil para as pessoas, então nós temos que esticar bem o estilingue para a pedra ir parar mais longe. Se você não a estica o suficiente, ela cai um metro, dois metros adiante. Então, este recuo é absolutamente fundamental para nós e é um processo que podemos comparar a uma espécie de gestação.”

Olavo de Carvalho, filósofo brasileiro, no Curso Online de Filosofia,  Aula 68.