Ditoso seja

 

“Ditoso seja aquele que somente
se queixa de amorosas esquivanças;
pois por elas não perde as esperanças
de poder n’algum tempo ser contente.

Ditoso seja quem, estando ausente,
não sente mais que a pena das lembranças;
porqu’, inda que se tema de mudanças,
menos se teme a dor quando se sente.

Ditoso seja, enfim, qualquer estado
onde enganos, desprezos e isenção
trazem o coração atormentado.

Mas triste quem se sente magoado
d’erros em que não pode haver perdão,
sem ficar n’alma a mágoa do pecado.”

Luís de Camões, poeta português, em Sonetos.

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Leonardo Coimbra e a filosofia portuguesa

“O problema de Deus apresenta-se por várias vezes na obra escrita por Leonardo Coimbra. Ele formula-se na indagação da prova que se torne evidente e luminosa, como o Amor dantesco que move o Sol e, com ele o ser de todas as criaturas. Tal indagação, longe de ser única ou uniforme para todos os espíritos, é variável segundo o carácter, o temperamento e a afectividade dos adolescentes, os quais, por não encontrarem a prova racional ou experiencial que lhes fale à alma, se tornam sujeitos à malícia das inferiores idolatrias.

Leonardo Coimbra elimina sucessivamente os erros das provas consideradas cousistas, admitidas por pessoas que não aprofundaram as doutrinas religiosas, e recorre a uma apologética dependente dos conceitos de infinito, de sublime e de amor. A teologia há-de, porém, ser sujeita ao exame da teodiceia, que, sendo a doutrina da justiça de Deus, exige a conciliação do bem com o mal. Aos adolescentes, que vivem num ambiente que lhes é adverso, difícil, proibido, parece-lhes evidente a prevalência do mal, quando confessam sucessivamente o cepticismo, o pessimismo e o nihilismo, variantes de uma antropologia sem Deus.

Leonardo Coimbra viveu numa época em que a Escolástica, o tomismo e o aristotelismo ainda não haviam sido dignificados pelo resultado das investigações eruditas que os papas Leão XIII e Bento XV haviam aconselhado e promovido entre clérigos e leigos. A Universidade de Coimbra, na medida em que se mostrava continuadora do ensino dos Jesuítas, expulsos de Portugal em 1759, era tida como reaccionária contra o positivismo de Teófilo Braga e dos seus continuadores. O espírito anti-clerical dos políticos monárquicos e republicanos fomentava um ateísmo que descia dos jornalistas até às massas populares.

A filosofia portuguesa decaiu profundamente ao afastar-se da escolástica e do aristotelismo, tradicionais no país. O Marquês de Pombal, procedendo como quem sabe o que não quer enquanto ignora o que quer, considerava Aristóteles como um filósofo abominável, indigno de ser mencionado nos compêndios escolares, e até mandou cancelar, censurar ou suprimir as referências que eram feitas ao Estagirita na tradução portuguesa do tratado de lógica de António Genovesi. Não prescreveu, porém, qual o sistema filosófico que deveria ser adoptado no ensino universitário, porque o espírito do reformador estava apenas preocupado com o ensino politécnico, quer dizer, da ciência e da tecnologia, enfim, da habilitação sindical.

A decadência dos estudos filosóficos no período do liberalismo religioso, político e económico que sucedeu ao “reinado” do Marquês de Pombal, explica perfeitamente que os estudiosos mais sérios vissem no sistema de Augusto Comte um plano aceitável para a reforma da educação portuguesa. A tal apostolado se dedicou Teófilo Braga, que tendo sido primeiramente atraído por Hegel e Vico, assimilou, ensinou e divulgou o sistema positivista, logo que para tal obteve cadeira no Curso Superior de Letras de Lisboa (1872). Entendia o ilustre professor que a reforma filosófica deve preceder a reforma política, já que tal era a motivação do Partido Republicano Português, mas os revolucionários impacientes e apressados desrespeitaram a ordem normal, impuseram ao País instituições determinadas pela fraseologia mitológica e metafísica, e precipitaram os acontecimentos para o abismo retrógrado que tem sido julgado pelos historiadores esclarecidos.

A filosofia portuguesa, disciplinada durante quatro séculos pelos textos de Aristóteles, traduzidos em latim segundo os comentários de Santo Tomás, não poderia crescer, florescer e frutificar perante a literatura romântica e realista do liberalismo religioso, político e económico. A Universidade não aceitou a lição de Jorge Hegel ou de Augusto Comte, dois escolásticos, na construção da enciclopédia das ciências filosóficas. O século XIX foi, por isso, um século de decadência nos estudos liceais e universitários, e caracterizado por reduzida produção de escritos originais de estudos especulativos.



Em 1868, quando publicou a História da Filosofia em Portugal, Lopes Praça, então estudante de jurisprudência, apreciava com desgosto o atraso em que se encontrava o ensino oficial do nosso país. A reflexão do moço estudioso sobre a filosofia jurídica e a filosofia política dos publicistas portugueses permitiu-lhe augurar um período de confiança benévola no futuro da cultura portuguesa. Merecem transcrição alguns trechos desse notável documento histórico.

Ainda não se criou entre nós uma Filosofia Nacional Característica. Uma das vitórias alcançadas neste terceiro período é a preferência do português ao latim para escrever em matérias filosóficas. A vulgarização e o radicamento da Filosofia Racional entre nós depende muito desta conquista. Se muitos dos nossos Reformadores escreveram ou desejaram que se escrevesse em latim, era só para as Academias e para os sábios; mas amavam a instrução e procuravam pôr a Filosofia ao alcance de todos.

O que falta é uma escola superior junto da Universidade onde a Filosofia seja ensinada em toda a sua altura, a fim de os estudantes subirem devidamente preparados para as diversas faculdades que se destinarem. Este estabelecimento auxiliaria muitíssimo as escolas de instrução secundária e contribuiria para os progressos e radicamento da Filosofia Racional na nossa terra.

Mas admitindo já que nós possamos chegar um dia a imprimir nas Ciências Filosóficas o selo da nova individualidade, é de crer que a Filosofia que houvermos de nos apropriar não seja a idealista. Porque, posto que até hoje haja preponderado nas nossas escolas uma Filosofia imposta e não livremente escolhida, é certo que o génio português não propende para as abstracções aturadas do Idealismo, nem possui suficiente energia para as demoradas generalizações metafísicas de uma Filosofia toda espiritualista. Que um ou outro espírito o consiga, facilmente o acreditaremos; que a generalidade se eleve até ele, é o que as nossas convicções nos não deixam admitir. E aqueles dos nossos Filósofos que pensarem livremente não controvertem o nosso modo de pensar a este respeito.

Não passe muito embora de uma conjectura o que vamos dizer, estamos persuadidos que, a adoptar-se em Portugal uma escola Filosófica, ou a criar-se, só se generalizará e será portuguesa quando se recomendar pelo senso prático e moderação que deu à Escola Escocesa um lugar eminente na História Geral da Filosofia”.

Álvaro Ribeiro, filósofo português, em Memórias de um Letrado.

À sepultura de del-Rei Dom João Terceiro

“Quem jaz no grão sepulcro, que descreve
tão ilustres sinais no forte escudo?
– Ninguém; que nisso, enfim, se toma tudo
mas foi quem tudo pôde e tudo teve.

Foi Rei?- Fez tudo quanto a Rei se deve;
pôs na guerra e na paz devido estudo;
mas quão pesado foi ao Mouro rudo
tanto lhe seja agora a terra leve.

Alexandre será?- Ninguém se engane;
que sustentar, mais que adquirir se estima.
– Será Adriano, grão senhor do mundo?

Mais observante foi da Lei de cima.
– E Numa?- Numa, não; mas é Joane:
de Portugal terceiro, sem segundo.”

Luís de Camões, poeta português, em Sonetos.

Fresca serra

 

“A fermosura fresca serra,
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;

enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos ofrece,
me está (se não te vejo) magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
sem ti, perpetuamente estou passando
nas mores alegrias, mor tristeza.”

Luís de Camões, poeta português, em Sonetos.

Opportunities neglected

“‘Praise,’ said the sage with a sigh, ‘is to an old man an empty sound. I have neither mother to be delighted with the reputation of her son, nor wife to partake the honours of her husband. I have outlived my friends and my rivals. Nothing is now of much importance; for I cannot extend my interest beyond myself. Youth is delighted with applause, because it is considered as the earnest of some future good, and because the prospect of life is far extended; but to me, who am now declining to decrepitude, there is little to be feared from the malevolence of men, and yet less to be hoped from their affection or esteem. Something they may yet take away, but they can give me nothing. Riches would now be useless, and high employment would be pain. My retrospect of life recalls to my view many opportunities of good neglected, much time squandered upon trifles, and more lost in idleness and vacancy. I leave many great designs unattempted, and many great attempts unfinished. My mind is burdened with no heavy crime, and therefore I compose myself to tranquillity; endeavour to abstract my thoughts from hopes and cares, which, though reason knows them to be vain, still try to keep their old possession of the heart; expect, with serene humility, that hour which nature cannot long delay; and hope to possess, in a better state, that happiness which here I could not find, and that virtue which here I have not attained.'”

Samuel Johnson, English writer, in History of Rasselas, Prince of Abyssinia.

Ir além do círculo imediato

 

“Desde a adolescência, o meu interesse pelas coisas mais elevadas do espírito foi recebido pelo ambiente social e familiar em torno com desprezo, chacotas e tentativas de intimidação. Parecia que ir além do círculo do imediato, do banal e do mesquinho era o pior dos pecados. Estímulos, só recebi negativos. Mas não posso dizer que essa experiência tenha sido de todo prejudicial ou mesmo inútil. Com ela aprendi a guardar meus pensamentos para mim mesmo, evitando bate-bocas dispersantes, e graça a isso desenvolvi não só o poder de concentração, mas a capacidade de conservar minhas idéias na memória muito tempo antes de ter a oportunidade de escrevê-las. Posso dizer que tinha uma filosofia secreta bem antes de que alguém em volta pudesse desconfiar da sua existência. Só comecei a falar dela em público quando me senti seguro de que não precisava mais da aprovação ou simpatia de quem quer que fosse. É por isso que vejo bem claro o ridículo de toda afetação de independência. Qualquer moleque fracote pode se vangloriar de que “pensa com os próprios miolos”, precisamente porque não tem a menor ideia do preço da independência genuína.”

Olavo de Carvalho, filósofo brasileiro, via Facebook.

Juventude

“Na História, a juventude sempre é o que decorre da sua própria natureza, apresentando aspectos positivos e negativos. Positivos, pela sua capacidade de ação e de idealismo; mas negativos, pela sua irreflexão, pelo seu despreparo e apressamento, que a leva a cair, facilmente, nas malhas dos grandes agitadores e a servir aos interesses de demagogos e políticos. Em todas as épocas da humanidade, uma parte da juventude mais ativa tendeu à luta a favor das más causas, facilitando-as.

Foram jovens que destruíram o Instituto Pitagórico, condenaram Sócrates, perseguiram Anaximandro, Aristóteles, assassinaram Hipátia de Alexandria e perseguiram Santo Alberto, S. Tomás de Aquino, S. Boaventura, quando mestres na Universidade de Paris; que uivavam pelas ruas pedindo a cabeça de Dante, de Savonarola, de Giordano Bruno; que acusavam Pasteur de “charlatão” e atiravam pedras em Einstein. Esses jovens são ativos, eficientes na sua parte destrutiva. Mas há também uma juventude construtiva.

Então, o que nos cabe fazer é orientar a juventude brasileira, dar-lhe suficiente sabedoria: clara, positiva, concreta, de modo a imunizá-la contra as tendências niilistas, para que possa pôr a sua capacidade de ação e de idealismo em algo concreto que beneficie o país. Fora disso, nada dará resultado.”

Mário Ferreira dos Santos, filósofo brasileiro, em entrevista ao Pe. Stanislavs Ladusans.

Dois conjuntos de símbolos

“Quando um teórico reflete sobre sua própria situação teórica, defronta-se com dois conjuntos de símbolos: os símbolos da linguagem produzidos como parte integrante do mundo social em seu progresso de auto-iluminação, e os símbolos da linguagem da ciência politica. Ambos se relacionam entre si, na medida em que o segundo conjunto se desenvolve a partir do primeiro através de um processo provisoriamente chamado de esclarecimento crítico. No transcurso desse processo, alguns dos símbolos que ocorrem na realidade serão abandonados por não se prestarem à utilização científica, enquanto novos símbolos se desenvolverão dentro da própria teoria para a descrição crítica adequada dos símbolos que fazem parte da realidade. Se, por exemplo, o teórico descrever a idéia marxista do reino da liberdade, a ser estabelecida pela revolução comunista, como a hipóstase imanentista de um símbolo escatológico cristão, o símbolo “reino da liberdade” é parte da realidade; é parte de um movimento secular do qual o movimento marxista é uma subdivisão, enquanto que termos como “imanentista”, “hipóstase” e “escatologia” são conceitos da ciência política. Os termos usados na descrição não ocorrem na realidade do movimento marxista, enquanto que o símbolo “reino da liberdade” não tem valor para a ciência crítica. Não há, portanto, nem dois conjuntos de termos com significados diferentes, nem um conjunto de termos com dois conjuntos diferentes de significados; o que há são dois conjuntos de símbolos com uma grande área de fonemas que se superpõem. Além disso, os símbolos da realidade são, eles próprios, em grande parte, o resultado de processos de esclarecimento, de modo que os dois conjuntos também se aproximarão com frequência um do outro com respeito aos seus significados, e, em alguns casos, chegarão a alcançar a identidade. Esta complicada situação é uma inevitável fonte de confusões, entre as quais a ilusão de que os símbolos usados na realidade política são conceitos teóricos.

Infelizmente, esta ilusão e a confusão dela resultante corroeram profundamente a ciência política contemporânea. Por exemplo, ninguém hesita ao referir-se à “teoria contratual de governo”, ou à “teoria da soberania”, ou à “teoria marxista da história”, muito embora, na realidade, seja muito duvidoso que qualquer dessas chamadas teorias possa ser considerada como tal, em sentido crítico; e volumosas historiografias sobre “teoria política” dão tratamento a símbolos que, na maior parte das vezes, encerram escasso conteúdo teórico. Essa confusão chega a anular alguns avanços logrados pela ciência política desde a antiguidade. Veja se, a propósito, a chamada teoria contratual. Neste caso, ignora-se o fato de que Platão já realizara uma análise exaustiva do símbolo contratual, não só estabelecendo seu caráter não-teórico, como ainda explorando o tipo de experiência do qual se origina. Mais ainda, ele introduzira o termo técnico doxa para a classe de símbolos da qual a “teoria contratual” é um exemplo, a fim de distingui-los dos símbolos teóticos . Os teóricos de hoje não usam o termo doxa com esse propósito nem desenvolveram um termo equivalente. A diferenciação foi perdida. Por outro lado, entrou em moda o termo “ideologia”, que, em alguns aspectos, se relaciona com a doxa platônica. Mas justamente esse termo tornou-se uma nova fonte de confusão porque, sob a pressão do que Mannheim chamou allegemeine Ideologieverdacht, a suspeita geral da ideologia, seu sentido se estendeu de tal maneira que cobre todos os tipos de símbolos usados para proposições políticas, inclusive os próprios símbolos teóricos; hoje, há numerosos cientistas políticos que classificariam como ideologia até mesmo o episteme platônico-aristotélico.

Outro sintoma dessa confusão é dado por certos hábitos de discussão. Acontece com certa frequência que, em discussões sobre um tema político, um estudante — na verdade, nem sempre um estudante — me pergunte como eu defino o fascismo, o socialismo ou qualquer outro ismo do gênero. Com igual frequência sou forçado a surpreender o meu interlocutor — que aparentemente absorveu, como parte da sua educação universitária, o conceito de que a ciência é um depósito de definições de dicionário — com minha afirmação de que não me sentia obrigado a fazer esse tipo de definição porque os movimentos do tipo mencionado, assim como os seus simbolismos, eram parte da realidade; que apenas os conceitos podiam ser objeto de definições, e não a realidade; e era altamente duvidoso que os símbolos de linguagem em questão pudessem ser criticamente esclarecidos até o ponto em que tivessem alguma utilidade cognitiva na ciência.”

Eric Voegelin, filósofo alemão, em A Nova Ciência da Política.

Integridade

“13.18. O governante de She declarou a Confúcio: ‘Em meu povo existe um homem de firme integridade: quando seu pai roubou um carneiro, ele o denunciou’. Confúcio disse: ‘Em meu povo homens íntegros fazem as coisas de outra maneira: um pai encobre seu filho, um filho encobre seu pai e há integridade no que eles fazem'”.

Confúcio, filósofo chinês, em Os Analectos.